5. INTERNACIONAL 29.5.13

1. COM SANGUE NAS MOS
2. O QUARTETO FANTSTICO
3. A IMPLOSO DO CHAVISMO
4. MUITO POR EXPLICAR
5. O MOMENTO  IMPAR

1. COM SANGUE NAS MOS
Os mtodos de matana so menos elaborados do que o sequestro de avies, mas o fenmeno  o mesmo. O nome do que ocorreu em Londres e em Boston  terrorismo islmico
NATHALIA WATKINS

     O fato de os terroristas islmicos serem uma minoria da populosa comunidade muulmana mundial no significa que estejam isentos de ser chamados daquilo que de fato so: terroristas islmicos. O adjetivo importa porque aponta para um tipo de criminoso amplamente estudado e porque isso  relevante para combat-los. Por definio, eles so motivados pela crena cega na prpria superioridade religiosa e buscam o assassinato de inocentes como forma de espalhar o pnico em uma sociedade. O que mudou nos ltimos anos  a maneira como esses fanticos procuram atingir seus objetivos. Hoje, a vigilncia constante dos servios de inteligncia e o desmantelamento de grupos fundamentalistas em pases como o Afeganisto e o Imen tm impedido ataques organizados, com grande poder de destruio e milhares de vtimas, nos pases desenvolvidos. Resta aos radicais recorrer a meios mais rsticos. No atentado ao pblico que assistia  maratona de Boston, no dia 15 de abril, os terroristas usaram bombas feitas com panelas de presso, pregos e rolamentos. Trs pessoas morreram e centenas ficaram feridas. No mais recente ataque, em Londres, os terroristas usaram facas de aougueiro. 
s 14h20 da quarta-feira passada, Michael Adebolajo, de 28 anos, londrino de origem nigeriana, e Michael Adebowale, de 22, atropelaram o soldado Lee Rigby e depois tentaram arrancar sua cabea com golpes de faca e cutelo enquanto bradavam "allah akbar" ("Al  grande", em rabe). Ainda com as armas em punho e orgulhoso do seu crime. Adebolajo justificou-se para a cmera do telefone celular de uma mulher que passava pela rua do bairro de Woolwich, no sudeste de Londres. "Ns juramos por Al que nunca deixaremos de lutar contra vocs. O nico motivo pelo qual fizemos isso  porque muulmanos morrem todos os dias", disse ele, esquecendo que quem mais mata muulmanos so os prprios muulmanos. Esto a a guerra civil na Sria e os atentados no Iraque para comprovar. Quando a polcia chegou, os dois terroristas reagiram e, feridos a tiros, foram levados ao hospital.
     A princpio, os dois sanguinrios foram considerados "lobos solitrios", expresso usada para designar militantes que no pertencem a organizaes terroristas e agem por conta prpria. Contudo, assim como os irmos chechenos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, responsveis pelo atentado em Boston, terroristas islmicos no brotam espontaneamente do nada. Tanto os de Londres como os de Boston tinham ligaes com radicais dentro e fora de seu pas de residncia. Adebolajo foi impedido de fazer uma viagem quando tentava unir-se ao grupo terrorista Al Shabbab, o brao da Al Qaeda na Somlia. J Tamerlan visitou focos de radicalismo checheno na provncia do Daguesto, na Rssia, e na vizinha Chechnia. A influncia do radicalismo tambm foi sedimentada na mente desses jovens ao longo de vrios anos por pregadores radicais que agem livremente no Ocidente. Adebolajo  de famlia catlica, que frequentava sempre as missas dominicais. Em 2003, ele se converteu ao islamismo e adotou o nome Mujaheed. Nos encontros de um grupo radical banido da Inglaterra em 2010, seu maior interesse era saber em que situaes o uso da violncia poderia ser justificado. Recentemente, foi visto e fotografado em uma mobilizao para incentivar voluntrios a lutar na Sria ao lado de rebeldes sunitas e de uma filial da Al Qaeda. O mentor de Adebolajo era Anjem Choudary, um clrigo que defende a implantao da sharia, a lei islmica, na Inglaterra. Adebolajo tambm aprendeu algumas coisas com Omar Bakri, um clrigo que posteriormente foi expulso da Inglaterra e cujo dio pelo Ocidente apenas se acentuou depois que sua filha Yasmin recusou o vu e preferiu se tornar stripper em casas noturnas londrinas. Bakri, que tambm tem um filho pequeno chamado Osama, em homenagem ao falecido terrorista-mor Osama bin Laden, elogiou, na semana passada, a "coragem" de seu pupilo assassino. Com as principais organizaes terroristas enfraquecidas, o maior desafio agora  flagrar um muulmano radical antes de ele decidir cometer um atentado. Adebolajo e Adebowale estiveram no radar da polcia em diversas ocasies. O servio secreto ingls, MI5, vigiou os passos de Adebolajo ao longo de oito anos, mas concluiu que se tratava de um personagem menor. O governo ingls abriu uma investigao para saber se a inteligncia policial poderia ter evitado a morte brbara do jovem soldado que tocava tambor no quartel e deixou a mulher e um rfo de 2 anos. Se atentados de menor escopo so mais difceis de antever, isso s comprova que o terrorismo islmico est longe de representar um problema prestes a ser superado, como quis fazer crer o presidente americano Barack Obama em um discurso na semana passada. 


2. O QUARTETO FANTSTICO
Mxico, Colmbia, Peru e Chile iniciam uma rea de livre-comrcio ao zerar as tarifas de 90% dos seus produtos de exportao. Enquanto isso, o Mercosul afunda.
DUDA TEIXEIRA E TAMARA FISCH

     Durante a campanha eleitoral de 2011, o atual presidente do Peru, Ollanta Humala, discursou para uma pequena plateia de agricultores, em Lima. "No tempo dos inas, no havia tratados de livre-comrcio e nem por isso as pessoas aqui passavam fome", disse ele, sob aplausos. Humala fazia, assim, eco  exaltao de um passado indgena idealizado de sua sigla, o Partido Nacionalista Peruano (PNP), e  averso da esquerda aos acordos comerciais, que beneficiaram tremendamente o Peru nos ltimos anos. No imprio Ina, ele tinha razo, o que no faltava era batata. E s. Na ltima quinta-feira, 23, o mesmo Humala apareceu para as cmeras fotogrficas em uma situao totalmente diferente. Em Cali, na Colmbia, posou ao lado do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, do mexicano, Enrique Pea Nieto, e do chileno, Sebastin Piera, para sacramentar a entrada em vigor da Aliana do Pacfico. Essa rea de livre-comrcio, cujo projeto foi anunciado no ano passado, passa a funcionar no dia 30 de junho, quando 90% dos produtos comercializados entre essas naes tero as tarifas zeradas. 
     A reviravolta de Humala  um exemplo de poltico que, apesar das preferncias ideolgicas, se rendeu  realidade. No h maneira mais eficiente para reduzir a pobreza e distribuir a riqueza de um pas do que o livre-comrcio. J o seu inverso, o protecionismo,  o grande responsvel por afugentar os investimentos estrangeiros e a chance de uma economia crescer e de criar empregos. Se ainda estivesse apegado aos ideais bolivarianos do falecido presidente venezuelano Hugo Chvez, Humala provavelmente teria optado por ingressar no Mercosul, o palanque poltico travestido de unio aduaneira, que inclui Brasil, Argentina, Venezuela e Uruguai. 
     O efeito mais imediato da Aliana do Pacfico para o Brasil  a perda de clientes ao redor do mundo. "Um produto chileno ou mexicano, exportado para a China ou para os Estados Unidos, no pagar tarifas, enquanto um brasileiro arcar com algo entre 20% e 35%", diz Evaldo Alves, professor de economia internacional na Fundao Getulio Vargas (FGV), em So Paulo. O segundo impacto  que o fluxo de investimentos estrangeiros ser direcionado ainda mais aos pases da Aliana, de longe os mais dinmicos da regio. Por oferecerem um clima melhor para negcios e pouca ingerncia governamental, so esses os destinos que mais atraem os capitalistas. Enquanto o tempo gasto para abrir uma empresa em So Paulo  de 119 dias e em Caracas  de 141, em Santiago  de apenas sete. Muitas j so as firmas que, em vez de entrar no Brasil, burocrtico e caro, optam por produzir nos pases da Aliana e exportar para o mundo todo, sem impostos.
     O Mercosul e a Aliana do Pacfico possuem identidades opostas. Enquanto no primeiro se fala em incluir pases insignificantes como o Suriname, o Equador e a Bolvia, a pretenso na Aliana  costurar mais acordos com pases desenvolvidos. Virou vedete mundial.  cpula da Aliana da semana passada, compareceram como observadores Espanha, Austrlia, Nova Zelndia, Japo, Portugal e Canad. Os caribenhos mais evoludos, Costa Rica e Panam, pediram para entrar. Os costa-riquenhos j foram aceitos. Como se trata de uma rea de livre-comrcio, os acordos de reduo das tarifas feitos anteriormente por cada pas-membro com outras naes ou blocos continuam valendo. O Mxico, por exemplo, tem tratados com 44 pases. No Mercosul, cujo slogan institucional  "nosso norte  o sul", qualquer novo acordo precisa ser ratificado por unanimidade ou vai para a lata do lixo da histria. Os nicos firmados at agora foram com Israel, Palestina e Egito. Nulidades. 
     O sinal emitido pelo Mercosul para o mundo  de apoio a estatizaes de empresas e congelamento de preos na Argentina e na Venezuela. So medidas que deixam uma fatura pesada. Com investimentos em queda, a produo no aumenta. Impostos, gastos governamentais excessivos e comrcio limitado elevam o custo de vida. "Se por algum tempo parece que as coisas vo bem, a longo prazo a inflao pode minar todas as conquistas adquiridas", diz a economista canadense Barbara Kotschwar, especialista em comrcio na Amrica Latina, de Washington. Na semana passada, uma pesquisa da Universidade Catlica, de Buenos Aires, mostrou que na Argentina a pobreza aumentou de 37,2% para 38,8% dos jovens entre 2011 e 2012. As causas apontadas so a inflao anual de mais de 25% e a retrao econmica  o corolrio mais evidente da falta de investimentos. 
     Tratados de livre-comrcio, em mdia, demoram cinco anos entre a concepo e a entrada em vigor das novas tarifas de importao. Em 1994, quatro pases do Leste Europeu deixaram todos de queixo cado por levar apenas dois anos para pr de p uma zona de livre-comrcio. O recorde foi batido agora pela Aliana do Pacfico. Entre o anncio das intenes e a eliminao das tarifas passaram-se doze meses. "Nesse tempo exguo, eles j fizeram muito mais que o Mercosul em duas dcadas", diz o embaixador Rubens Barbosa. O sucesso da Aliana em contraste com o fracasso do Mercosul  desconcertante em especial para o Brasil, pas que poderia estar liderando a regio no caminho da prosperidade, mas abriu mo disso para os tresloucados regimes da Venezuela e da Argentina. 

O BLOCO DOS BONS NEGCIOS
A Aliana do Pacfico j nasce mais rica, mais competitiva e mais aberta que o Mercosul

TEMPO DE EXISTNCIA
Mercosul: 22 anos
Aliana do Pacfico: recm-criada

PRODUTOS COM TARIFA ZERO
Mercosul: 80%
Aliana do Pacfico: 90%

EXPORTAES (EM BILHES DE DLARES)
Mercosul: 335
Aliana do Pacfico: 556

TRATADOS DE LIVRE-COMRCIO
Mercosul: Com Israel, Palestina e Egito (tratados assinados em bloco)
Aliana do Pacfico: Com mais de cinquenta pases ou blocos, incluindo China, Estados Unidos e Europa (tratados assinados individualmente pelos pases)

PREVISO DE CRESCIMENTO DO PIB EM 2013
Mercosul: 2,5%
Aliana do Pacfico: 5%

POSIO NO RANKING DE LIBERDADE ECONMICA, SE O BLOCO FOSSE UM PAS
Mercosul: 133
Aliana do Pacfico: 29

Fontes: Evaldo Alves (FGV), Jos Augusto de Castro (AEB) e Heritage Foundation.


3. A IMPLOSO DO CHAVISMO
Uma gravao expe a natureza perversa do regime.

     Para se perpetuar no poder, o presidente venezuelano Hugo Chvez usou as estratgias mais baixas e violentas para submeter a oposio. Prendeu uma juza, mandou motoqueiros bater em estudantes e cortou empregos e benefcios dos que votaram em seus rivais polticos. Chvez morreu em maro, e o atual presidente, Nicols Maduro, repete as mesmas tticas. H duas semanas, ele afirmou publicamente que sabia a identidade de 900.000 eleitores que votaram no seu adversrio, o advogado Henrique Capriles Radonski.  uma fraude grosseira, que na Venezuela no ter nenhuma consequncia. A surpresa  que o comportamento de gangue que sempre foi usado contra rivais polticos tambm  utilizado entre  os prprios chavistas, que competem entre si pelo poder. Isso ficou evidenciado na semana passada pela gravao de uma conversa telefnica entre o apresentador de televiso Mrio Silva, chavista ferrenho, e Aramis Palcios, um alto funcionrio do G2, o servio secreto de inteligncia cubano. 
     O udio dura cerca de uma hora e foi feito quatro dias aps a eleio de Maduro. Mais do que mostrar que  Cuba quem efetivamente governa a Venezuela (Maduro  uma cria dos irmos Castro), a gravao explicita os expedientes chavistas. Ao reclamar de que sua famlia estava sendo ameaada porque ele sabia demais, Mrio Silva faz uma revelao comprometedora. "Diego Molero (o ministro da Defesa) j nos deu cinco fuzis. Agora temos doze. Temos muitas balas, temos capacidade para responder a uma agresso", diz ele. O gatilho era apertado sempre que necessrio. "Ordenaram a morte de meus filhos de novo. Descobrimos dois e lhes demos pum-pam, diz o apresentador. Silva era uma das pessoas mais prximas do falecido presidente. Com Chvez, fazia reunies noturnas para afinar os ataques  oposio em seu programa. Depois da morte do presidente, os grupos polticos se fragmentaram e Silva ficou sem saber para onde ir. Na semana passada, ele anunciou que deixar seu programa, alegando motivos de sade. 
NATHALIA WATKINS


4. MUITO POR EXPLICAR
O uso da mquina pblica contra adversrios polticos e jornalistas, algo inadmissvel numa democracia, macula o governo de Barack Obama.
DUDA TEIXEIRA

     Barack Obama entrou no quinto ms do seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. Em condies normais seria prematuro fazer um prognstico de sua Presidncia. Mas a sequncia de fatos desastrosos que cercam a Casa Branca prontos para subir os degraus de mrmore e se instalar no Salo Oval deixou Obama na defensiva. A mais caridosa das avaliaes d conta de que o segundo mandato vai ser gasto na tentativa de salvar sua gesto do naufrgio. Isso se chegar ao fim. Alguns de seus mais prximos conselheiros e ministros esto prestes a responder por crimes de abuso de poder. Se uma s fasca dessas malfeitorias produzidas por seus auxiliares atingi-lo, a Presidncia de Obama vira cinzas. 
     Fiquemos por enquanto com apenas um desses crimes com potencial de deflagrar uma crise institucional em Washington, a investigao para saber se Obama se envolveu na deciso do IRS, a Receita Federal americana, de perseguir grupos polticos conservadores. A cada novo depoimento ou relatrio, a hiptese de que os fiscais da Receita agiram por conta prpria, sem ordens superiores, contra os rivais polticos do presidente torna-se menos plausvel. Basta aparecer um nico e-mail, um depoimento ou outra evidncia de envolvimento direto nesses crimes e Obama vai para aquele limbo onde, para efeito didtico, a histria mantm em suspenso animada presidentes que abusaram do poder para perseguir e calar seus oponentes. Nem o maior inimigo de Obama imaginaria que um dia ele estaria arriscado a dividir esse incmodo espao com Richard Nixon, o republicano obrigado a renunciar em 1974 no calor do escndalo de espionagem de adversrios conhecido como Watergate. Se, o que  a cada dia mais improvvel, Obama escapar de envolvimento direto no banditismo instalado no IRS, ele ainda ter de se desvencilhar de outras aes criminosas de seus subordinados mais prximos. A revelao de que o governo quebrou o sigilo telefnico e espionou os computadores de jornalistas  a segunda frente de escndalos a cercar a Casa Branca. Isso  assustador para qualquer americano, seja qual for sua orientao poltica. Mas quem no governo daria uma ordem dessas? At hoje, a Casa Branca no soube responder. A razo disso  que a ordem de espionar cidados pode ter partido do prprio secretrio de Justia, Eric Holder. Quando isso vier  tona, ser quase impossvel salvar o governo Obama. Colocar o FBI para grampear e seguir os passos de jornalistas  uma atitude antiamericana de fcil entendimento pelo pblico. A principal vtima da espionagem oficial foi um reprter da Fox News que buscava informaes para uma reportagem sobre a Coreia do Norte. A esses dois escndalos ainda se soma outro, um pouco mais complexo para a compreenso da "maioria silenciosa" do pas, que foram as tentativas de acobertar as falhas de segurana no ataque terrorista ao consulado americano em Bengasi, na Lbia, em setembro de 2012. 
     Obama no sabe o que fazer ou dizer ao pblico americano. Sua retrica fcil tem sido insuficiente para acompanhar a velocidade do desdobramento dos escndalos. Na quarta-feira passada, a diretora de isenes fiscais do IRS, Lois Lerner, atendeu  convocao para depor perante o Congresso. Lois  uma personagem central para confirmar a suspeita de que seus funcionrios agiram sob ordens de cima quando, entre 2010 e 2011, submeteram grupos conservadores em busca de iseno de impostos a saraivadas de interrogatrios ilegais  para em seguida negar seus pedidos. Enquanto isso, grupos ligados ao Partido Democrata, o do presidente, eram atendidos prontamente sem nenhuma exigncia. Um desses pedidos privilegiados de iseno de impostos favoreceu Malik Obama, meio-irmo do presidente Barack Obama, cujo grupo nunca existiu. Uma fraude completa. Lois Lerner assinava as cartas com perguntas invasivas aos grupos conservadores ("Que livros leu recentemente?", "Mande cpia de todos os seus posts no Facebook"). Ela alegou direitos constitucionais de nada responder perante os congressistas. Dificilmente vai escapar da cadeia. Enquanto isso, a temvel palavra "impeachment" comea a ser pronunciada com mais desenvoltura. O abuso de poder  suficiente para iniciar um processo para tirar o presidente do cargo. 


5. O MOMENTO  IMPAR
ANDR PETRY, De NOVA YORK

Nesta semana, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, desembarca no Brasil para uma visita de quatro dias. Na pauta, discusses sobre energia e segurana. Biden ter reunies com a Petrobras no Rio de Janeiro e, na sexta-feira, encontra-se com a presidente Dilma Rousseff, em Braslia. Antes de embarcar, Biden aceitou responder a algumas perguntas de VEJA, por escrito, sem direito a rplica:

Os Estados Unidos esto em declnio? 
De maneira alguma. Pelo contrrio, estamos otimistas com o futuro. Continuamos acreditando que o povo americano  educado nas melhores universidades do mundo, trabalhando em um ambiente inovador de onde saram o Facebook e o Google  ser o motor da nossa economia, no s para nos recuperarmos, como tambm para prosperarmos. Os Estados Unidos possuem uma rede nica e inigualvel de alianas globais do Atlntico ao Pacfico, alicerada na maior fora militar do mundo. Novas e arrojadas empresas americanas so criadas todos os dias. Acreditamos que a capacidade dos EUA de renovar as fontes de nossa fora  educao, inovao e capacidade receptiva  garante que no estamos em declnio hoje, nem estaremos por anos a fio. E, assim como estamos otimistas com o nosso prprio futuro, vemos com bons olhos o sucesso de outras naes tambm. Estamos felizes em ver essas naes ascendendo como parceiros capazes, prsperos e democrticos, que compartilham os encargos da liderana global. Aplaudimos quando melhoram a vida de seus cidados. Embora tenhamos uma competio econmica, acreditamos que, com boas polticas pblicas, todos podemos crescer juntos. Esperamos que as empresas brasileiras sejam nossas parceiras comerciais e que a crescente classe mdia continue consumindo produtos americanos. Saudamos o sucesso econmico do Brasil. Saudamos a ascenso de um Brasil global, semeando oportunidade na regio e alm dela. 

Neste segundo mandato, o governo Obama pretende focar menos em terrorismo e mais nas relaes econmicas e liberalizao do comrcio? 
Os EUA tm de se preocupar tanto com ameaas quanto com oportunidades. Temos de fazer os dois simultaneamente. Combater ameaas do terrorismo continua sendo prioridade para os EUA e nossos parceiros. Ao promovermos a democracia e a oportunidade econmica, tambm estamos empenhados em enfrentar as causas subjacentes ao terrorismo e a ideologias extremistas. Seguiremos avanando essas metas importantes no plano bilateral e em instituies multilaterais.  verdade que a guerra no Iraque terminou e a do Afeganisto est chegando ao fim. O presidente j deixou claro que,  medida que isso se materializa, a renovao econmica dos EUA  uma prioridade de segurana nacional. Estamos envolvidos em iniciativas comerciais importantes, renovando nosso compromisso com a promoo de parcerias em todo o mundo. Isso inclui o fortalecimento da cooperao com lderes nas Amricas, como o Brasil, para que possamos tratar de toda a gama de desafios globais, da mudana climtica  luta contra a pobreza mundial. 

Por que os EUA esto agora empenhados em estabelecer "o mais ativo engajamento de alto nvel com a Amrica Latina em muito, muito tempo", como o senhor disse ao anunciar a viagem ao Brasil? 
A Amrica Latina vive um momento mpar. Vrios pases adotaram vigorosas polticas de promoo econmica e tm feito grandes contribuies  recuperao da economia global. Nos ltimos quinze anos, 56 milhes de famlias da Amrica Latina e do Caribe se juntaram s fileiras da classe mdia, que agora conta com mais de 275 milhes de pessoas. Temos laos profundos com os nossos parceiros na regio atravs de slidas relaes comerciais e  investimento e da nossa cooperao em rgos regionais importantes, como a Organizao dos Estados Americanos. Ns vemos uma oportunidade para aprofundar esses laos, promovendo uma maior integrao. A Amrica Latina est se tornando cada vez mais relevante para alm do Ocidente. O Brasil  um membro influente em muitas instituies multilaterais. Queremos trabalhar em estreita parceria com os lderes do nosso hemisfrio na medida em que pases como o Brasil vo assumindo maiores responsabilidades globais. 

O senhor j disse que h "muitas oportunidades" perdidas na relao entre EUA e Amrica Latina. O senhor pode apontar trs oportunidades perdidas com o Brasil? 
Estamos aproveitando a oportunidade para garantir espao para o nosso setor de manufaturados num mercado global competitivo ao negociar com nossos parceiros no Pacfico e na Europa a nova gerao de acordos comerciais de alto valor agregado. Tambm continuamos empenhados em trabalhar com a Organizao Mundial do Comrcio para promover o comrcio global. Estamos igualmente interessados em aprofundar nossa relao comercial com o Brasil, de modo a beneficiar os dois pases. Mais de dois teros das exportaes brasileiras para os EUA so de bens manufaturados  os tipos de produtos que o Brasil quer e deve produzir mais. Nossos governos podem ajudar a aprofundar o comrcio e os investimentos, e estamos fazendo exatamente isso quando trabalhamos com o governo brasileiro e o setor privado por meio de grupos como o CEO Foram. Do mesmo modo, precisamos aprofundar nossa cooperao no setor  de energia. Tanto os EUA como o Brasil so importantes produtores de energia. Temos interesse mtuo na produo segura, responsvel e eficiente dos recursos energticos. Tambm trabalhamos em parceria com o Brasil para enfrentar um nmero crescente de desafios globais. Em conjunto, contribumos com a reconstruo do Haiti aps o terremoto de 2010, a reduo da pobreza, a promoo do desenvolvimento econmico e a segurana alimentar nas Amricas e na frica. Os EUA e o Brasil so parceiros naturais no desenvolvimento global. E ns queremos ampliar essa cooperao. 

O senhor concorda com a tese segundo a qual a China avanou tanto na sua relao com a Amrica Latina porque percebeu antes dos EUA que o mundo abaixo do Rio Grande no  s droga, crime e imigrao ilegal? 
Nossa poltica para o Ocidente  predominantemente baseada em uma agenda positiva de fortalecimento da democracia e avano da prosperidade regional. Um hemisfrio estvel e prspero  de interesse vital para a segurana dos EUA. Nesse contexto, a relao comercial e de investimento da China com a Amrica Latina e o Caribe reflete a importncia global emergente da regio. Obviamente, vrios pases da Amrica do Sul lucram com o comrcio crescente com a China. Ainda assim, o comrcio total da regio com a China chegou a 261 bilhes no ano passado.  uma frao dos 843 bilhes de dlares do comrcio com os EUA  e as nossas relaes comerciais so muito diversificadas e oferecem excelentes oportunidades aos produtos de valor agregado vindos da Amrica Latina. Apoiamos a China, que age de acordo com padres internacionais e promove o desenvolvimento sustentvel na Amrica Latina e no mundo. Os laos econmicos da Amrica Latina com a China podem desempenhar um papel positivo na construo de uma sociedade mais prspera e mais globalizada.


